segunda-feira, 30 de junho de 2008

Quantas Contas! Conte-se!

Mais que dois, são três... são quatro, cinco, dez... não importa o exercício que o valha, sempre a quantidade traz consigo a dificuldade no controle, na resposta ágil e convicta. Sempre!
É simples: quanto maior a quantidade, mais tempo para tudo, mais peso em tudo, mais conta, raciocínio, demanda, dúvidas ou certezas.
Não quero dizer, com isso, que a maior quantidade faça emergir um sentido de derrota ou desespero. Ao contrário, o dito reza que “o que vem para somar é sempre bem-vindo”.
Tampouco, afirmo que dificuldade do controle seja sinônimo de fracasso. Também, me toma a idéia popular de que as dificuldades dignificam o herói.
Então, quantos números e unidades fazem a conta certa?
Já disse a meu filho que o dono das contas não sou eu.
Daí ele me vem com um exemplo:
- Mas, pense bem... eu peso 35 quilos e nem pareço pesar muito porque eu me agüento e não cansa. Mas, toda vez que você me pede pra carregar um saco de arroz do supermercado, que só pesa 5 quilos, logo estou cansado! Como pode?
- Eu não sei explicar direito, mas você vai se acostumando aos poucos com o peso do seu corpo. Você não percebe quando muda de peso. Assim, seu corpo se adapta devagarinho, concorda?
- É! Faz sentido, sim! E o saco de arroz aparece do nada, lá da prateleira pra eu carregar, não é? Por isso, então, que cansa!... Se eu fosse você, então, pensaria muito, antes de me fazer pegar tanto saco de arroz!
- Por outro lado, e se você passar pela prateleira e não pegar o arroz?
.........................................................
- Acho que morro de fome. Adoro arroz!
- Pois é!
.........................................................
- Mas, também, e se você me pedir pra carregar 7 sacos de arroz, de uma só vez?
- Ué! Eu não vou fazer isso. Vou sempre ajudar você!
- Hum!
.........................................................
- Qual é seu peso?
- Devo ter uns 80 quilos, hoje. Mas, por que?
- Tem sempre alguém pra ajudar você a carregar 16 sacos de arroz de uma só vez?
.........................................................
- É! Tem razão! Não dou conta de carregar tudo isso.
- Pai!... já que você não é o dono das contas, da próxima vez, me deixa
carregar só 2 quilos de feijão?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

De Chocalhos e Caixinhas de Presente

Pegaram o aviãozinho, desmontaram e puseram dentro da caixa. A torre de rádio foi posta por debaixo dos panos que cobriam a televisão quatorze polegadas. O carrinho vermelho que custou os olhos da cara, mas foi o melhor presente do Natal passado, colocaram-no detrás do portão da casinha velha, aquela com a pintura fosca e empalidecida. Lógico que trocaram a casinha por uma mais nova; a velha, o caçula pegou pra ele. A lancha que ainda anda direitinho na água foi emprestada pro priminho e até hoje ele não devolveu. Deu vontade até de comprar uma outra, maior e mais cheia de botõezinhos pra brincar nos fins de semana. Mas, só podem no fim de semana, pois, dia de semana tem que estudar. Agora foi preciso comprar uma moto a mais, pra não criar qualquer sentimento de inveja ou de menos valia na família. A gangorra atual é feita sob medida e de madeira mais resistente, diferente da antiga que podia quebrar a qualquer momento. O fogãozinho que fazia comida de verdade, nem souberam dizer onde estava. Acham que foi dado de presente para quem precisava, também no Natal passado. As panelinhas ficaram demodê e já existem panelinhas mais bonitas que aquelas do aniversário. As bonequinhas e os bonecos precisaram de roupas novas e a mamãe cuidou de costurar uns panos mais vistosos e mais na moda. As antigas foram “doadas”, já que não tinham mais valor. Só a bola permanece a mesma. Está gasta, mas é de estimação. Muitos gols foram feitos com ela; e aqueles gols...Ah! Aqueles gols não têm preço.
- Papai, gente rica também brinca de casinha, né?
- Brinca, filho! Brinca! E enjoa de brincar, igualzinho a você!

sábado, 1 de dezembro de 2007

A Arte da Rotina Cartesiana

Pequena caixinha que tem um presente, um tesouro secreto e o riso da gente; leva pro fundo uma vida e, depois, eleva ao céu infinito nós dois.

Ela acordou e foi trabalhar.
Ela levou as crianças à aula.
Ela almoçou com uma amiga antiga.
Ela resolveu o problema do chefe.
Ela voltou mais cedo pra casa.
Ela pegou as crianças, de carro.
Ela resolveu passear com os meninos.
Ela comprou um vestido da moda.
Ela lanchou e brincou com os filhos.
Ela chegou quase às vinte horas em casa.
Ela resolveu ajudar o esposo.
Ela preparou um risoto pra todos.
Ela banhou-se e chamou o marido.
Ela resolveu que queria amá-lo.
Ela beijou-o e jurou-lhe paixão.
Ela sacudiu-o às seis da manhã.

Ele levantou-se com cara de bravo
E foi à cozinha tomar seu café
E pegou a maleta pra ir ao trabalho
E pagou as contas no banco lotado
E ligou pra esposa contando as saudades
E tentou almoçar com um amigo de infância
E mandou o empregado mais cedo pra casa
E ligou pros amigos no meio da tarde
E foi para o clube jogar futebol
E tomou um chopp com o esposo da nora
E contou pro irmão dos problemas de grana
E voltou para casa cansado do dia
E seguiu pro chuveiro com a roupa suada
E lembrou-se da luz da cozinha queimada
E esperou a esposa deitar-se
E sorriu com uma cara de quem quer algo mais.

Dormiram abraçados.
Casaram-se aos vinte,
tiveram três filhos,
formaram-se, os dois, em direito,
compraram uma casa,
viraram avós,
brincaram com os cinco netos,
ficaram a sós,
pra sempre, enfim!

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Viver in verso

Escrever fino ou escrever grosso.
Como se uma lapiseira 0.5 tirasse da idéia um coelho branco e bem dentuço e bem gordo e puxado pela orelha, agarrado a uma cenoura. E depois do puxão, ter que sair do cantinho escuro e ser mostrado a todo mundo que aplaude o pensamento implícito do coelho dizendo: “Isso doeu, caramba!”. O bom é que saiu, oras! Saiu!
Agora, é só saber: quanto vive o traço fino num papel?
Tempo não é nada. Antes pouco tempo ao borrão do grafite 0.9 apagado as cem vezes que o mágico treinou despistar o público com o fundo falso da cartola.
Menos mau, ainda, será?, não ter optado pela caneta que faria jus à teia de aranha rabiscada para o eterno fim cavado trezentos anos depois, enterrada junto à ossada de um coelho empoeirado.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Uma ruazinha

Uma ruazinha com ar nostálgico. Era, sim! Uma rua sem calçadas, sem cimento, sem concreto. Havia um rumo para nela se seguir, sim, mas tudo formado com a ajuda do vento e dos passos marcados pelas pessoas que ali pisavam todos os dias, por todo o tempo; ao longo do tempo que a ruazinha existia. E existia, sim!
Às vezes passava por ela, parava, olhava, o que me deixava um pouco confuso ficar ali, assim absorto, buscando captar o que aquela ruazinha significava pra mim. Havia dias em que a grama seca era contrastada, paradoxalmente, às flores sempre vívidas, reluzentes que adornavam toda a paisagem da rua. Todas as casas, tanto as da direita quanto as da esquerda que delineavam e traçavam os limites da ruazinha, ganhavam vida com as rosas, gardênias, hortênsias, girassóis, orquídeas, margaridas e todas as outras que conheço muito bem; ganhavam brilho e escapavam à visão de tantas pessoas que as quisessem absorver somente com o olhar que logo se perdia no horizonte infinito de cores.
Também nunca soube dizer se era primavera. Apesar das flores sempre vivas, um sol fosco era sempre presente. Mal se viam sombras. Por vezes, cheguei a pensar que aquele lugar era mágico; que Deus não tinha poder sobre ele. Juro que o mistério de tudo aquilo hipnotizava, promovia divagações infindas. Bastava estar ali e toda essência da ruazinha fugia a qualquer explanação lógica. Outono sem graça, seco e constante, com árvores frondosas e altas que seriam refúgio perfeito para o casal apaixonado ou o peão que descansa fazendo a cesta depois do almoço num dia de verão. Não sei! As pessoas que nela viviam preferiam ficar quietas, pois, uma rua assim, apesar de toda beleza, afugenta com tantas incógnitas tangentes. Sendo assim, havia dias em que tudo se assemelhava ao mais intenso inverno, pela falta de vida aparente. Rigorosa proteção do frio que a ruazinha inspirava; mesmo sem chuva; mesmo sem neve.
Aquelas casas altas, grandes em espaço e beleza. Rústicas e com muitas janelas. Muitas! Vi muitas outras flores através delas. Vi muitos mundos à parte, dentro daquelas grandes casas. Em uma vi três crianças correndo enquanto uma suposta mãe preparava o jantar em uma panela de pressão. Eram os sons mais comuns, os das panelas, em vez de pássaros na paisagem. Lembro-me de que segui um pintassilgo até a janela de uma outra casa vizinha. Ficamos os dois assistindo à cena que se passava na tela daquela janela: uma lareira acesa e, ao lado, uma gaiola com dois passarinhos que cantavam com uma beleza tão grande quanto a de todas aquelas casas. Afastando-me, podia ver a fumaça da lareira subindo por uma chaminé, desenhando nuvens bonitas no céu que logo se desmanchavam e se fundiam com o mistério daquela ruazinha.
E era assim aquela ruazinha, bem ali, desenhada naquele pedacinho de azulejo. Às vezes lembro e penso: quantos pedacinhos de azulejo, como este, seriam necessários para compor uma cozinha, completar um salão de festas ou um banheiro?

Ludo

Hoje quero um amor de criança, pois ela é pura, doce, meiga. Quero um amor que me faça rir; que me faça ver a vida transformada em roda gigante, em pirulito, pipoca; pois, a mesma criança pura, doce e meiga sabe, melhor que ninguém, o que é ter um passe livre para brincar com a vida de forma responsável. Sabe o que é ser querida. Sabe o que fazer num parque.
Hoje quero um abraço de criança, pois ela é segura, verdadeira, hábil. Quero um abraço que me faça ser querido; que me faça ver o mundo como um enorme colo que acolhe, que afaga, que conforta; pois, a mesma criança segura, verdadeira e hábil mostra-se frágil e conhece o fato de que até mesmo Deus, um dia, teve um filho para poder provar a esse mundo a necessidade de sentir-se envolto e protegido.
Hoje quero um beijo de criança, pois ela é livre, é sol, é lua. Quero um beijo que me tire o fôlego. Que me faça ver as estrelas cintilantes em harmonia, em júbilo, em luz viva; pois, a mesma criança livre, sol e lua, sabe que essa falta de ar nos ilumina, leva-nos ao planeta mais harmônico do universo. Eu e ela; Gênese!
Hoje quero um olhar de criança, pois ela é mensageira, toca, é poesia. Quero um olhar que me desnude. Que sobressalte minha alma como num "Raio X". Que me mostre meus avessos, meus segredos, então, espelhados; pois a mesma criança mensageira, que toca e é poesia, também, um dia, nasceu e se encantou quando sentiu-se tocada.
Hoje quero o calor de uma criança, pois ela é quente, intensa e aquece. Quero meu coração aquecido. Que faísque meu pólo mais ermo e contagie, até mesmo, os vales onde não existem carne, nem osso... as cores que só existem em meus devaneios; pois, a mesma criança quente, intensa e que aquece é sábia quando se contagia com o fogo de sua própria existência. Sabe o que essas fagulhas valem; Chama!
Que o dia de hoje seja a mensagem de amor mais puro, com o beijo mais intenso, sabor pirulito. Que essas palavras toquem o céu de forma pura e que o sol que emana vida seja ainda mais aquecido por um abraço lunar. Que Deus leia e ouça meus desejos...
Ah, como é mágico imaginar essa como sendo nossa eterna gênese, minha terna criança!

O Baú

Resolvi jogar dentro do baú algumas peças. Resolvi, ainda, xeretar lá dentro e ver se há algo útil que escondi naqueles tempos. Eram tantas coisas pra jogar que resolvi começar esvaziando-o. Foi-se tudo, de uma só vez, ao chão. Virar o trambolho foi fácil. Não dá trabalho. Só meus trecos entenderiam a razão de tanto zelo. Se eles pudessem falar... Pensando bem, se pudessem falar perguntariam por que foram parar mofados lá no fundo. Eu fingiria que não escutei e manteria o sorriso tradutor de uma aparente saudade quase inerte. Eu forçaria, de verdade, manter o zelo que lutei pra que viesse à tona.
Uma a uma, todas me traziam presentes as vidas que ficaram só nas fotografias, as mesmas estáticas num desenho capturado no tempo.
Expor-me a tal reencontro não me fez cego. No entanto, não me fez ativo. Curioso! Pode um presente, que já naquela época era chamado de alegria, transformar-se numa mera reminiscência sépia, insossa?
Por qual motivo, então, eu quis jogar mais coisas dentro do baú antigo?
Através do baú, eu passava a dimensões que já vivi. Por meio dele, eu revivia as dimensões pelas quais passei.
Sendo essa minha desculpa para aumentar o peso do trambolho, lá pelas tantas tudo ficou misturado. Tudo eram presentes; tudo era passado.
Jogar tudo fora doía. Jogar tudo no baú pesava. E me emergia quase uma sensação odiosa de um espírito vivo-morto por não saber o que fazer ou perder tempo “selecionando” os momentos mais marcantes.
No final, preferi a dor ao peso e à quase morte. Optei por isso em virtude de um argumento não menos imposto que meu reencontro com o pó involucrado (feio assim, mesmo!): o mesmo tempo que açoita as lembranças na sua aparência e valores, pelo pecado do desuso, é o remédio e prêmio àquelas vidas que usam o seu passado como estopim de um futuro zeloso. E essas vidas não merecem o castigo de uma prisão.

Da Plantação à Colheita

Mais um talho no dedo e a cana deitada no chão se amontoa por um caminho que escapa à visão.
Queria ver Maria sentada lá no quintal da casa, pilando o café servido amanhã, com certeza! Um dia hei de casar com uma moça bonita. Ah, eu sonho, sim, entrar na igreja com aquela roupa preta e um lenço no bolso; o cabelo brilhando. Penso, sim, em ter família e comprar terra boa pra plantar. No dia do casamento quero meus amigos todos lá; minha família. Sei não, mas minha mãe vai chorar demais. Mas é de alegria. É! Um dia vou casar, mas é que agora ainda não posso, né. Ainda tenho que ajuntar dinheiro. E é tanto pouco tempo pra viver, que não conheço moça tem é tempo! Outro dia me lembrei foi das meninas da Vila Ipezinho. Êta, mas aquelas eram folgadas, viu! E não eram de confiança, também. Tinha hora que era uma querendo comer o fígado da outra e a outra querendo sentar a faca nas costas da uma... nem dava gosto. Ta vendo esse sangue aqui no dedo? É pouco. Já vi foi muito mais que isso. E não eram só elas. Na vila, nem os homens eram de confiar. O Darço que mandava na cidade parecia garrote que segue a fila e só levanta a cabeça se for pra desviar do rabo do boi da frente. Era um babão, aquele. Pastava na mão de qualquer um. Ainda tinha homem que botava banca de vaqueiro, tocava a manada, montava no lombo dos cavalos que trotavam no ritmo certinho. Quem tem rédea vai até onde quiser, ou até o cavalo morrer e trocar por outro, né. Tinha cobra na cidade, também, que nem aqui, só que é gente... Tinha hora que eu não sabia quem era pior. Se, de um lado, tinha o vaqueiro que era quem mandava de verdade e não levantava o rabo do lombo dos cavalos, por outro, onde se pisava tinha cobra traiçoeira. O Darço, coitado, nem via o que acontecia ao redor. Ou preferia não ver, né. Diz que, de gente assim, se desconfia duas vezes. Já vi a Miana e o Jerssi soltar os venenos na hora certinha. Um dia, dizem, né... não sei... que o Jerssi fez umas propostas de desposar a Miana lá detrás do monjolo. Miana não quis. Queria casar antes. Mas ficou nisso, né. Miana tinha apreço pelo moço; tinha simpatia. E ele, muita estima pela moça. Acontece que de tanto levar não, o Jerssi se engraçou com Dorinha, moça que chegou na vila um tempo depois, e a tal moça também começou a se arrastar pra ele. Resolveram noivar. Acontece que o Boloca, irmão da Miana, viu as proximidades da irmã com o Jerssi lá no monjolo e resolveu delatar. Aí foi farofa pra todo lado. A vila toda começou a falar mal do Jerssi e tomaram partido da moça. Resultado foi que ela resolveu falar que ele tinha era forçado, e que não falou nada antes pra proteger a reputação dela e a posição do moço, que até tinha certo prestígio. Ele bem que tentou se justificar, mas não deu. Teve que sair fugido e nunca mais vi o sujeito. Perdeu foi tudo, aquele. Daí a vila toda ficou sabendo e eu nem sabia quem era pior... se era o Jerssi que fez o malfeito ou se a Miana que mentiu, dizendo que foi forçada. Acho até bom não julgar, por quê, depois, quem vai parar no inferno sou eu. Já é meio desagradável viver com esse povo aqui. Imagina dividir espaço com eles lá na casa do tinhoso. Deus que me guarde disso. Prefiro ficar aqui na cana. Cá eu ganho pouco e talho o dedo, mas só me preocupo com a comida e a visão de Maria todo dia. Hei de casar com uma moça como ela, sim. Tem a Ruiva que se engraça pro meu lado, mas não chega aos pés da Maria. A Maria que é razão de sorriso. Se Ruiva tivesse as pernas dela; a beleza. Ah, se fosse dela! Ah, se fosse bela! Como ela, só o amor de Jesus que, aqui na vida, só se sente, não se vê. É tudo época! De plantar e de colher.

Zezinho, Joana e Um Amigo

Dizem que escrever histórias requer paciência. Dizem que pede inspiração; uma dose de imaginação, criatividade. Há outros que dizem que só se precisa da lembrança como companhia, sentada na cadeira ao lado.
Há dias em que sinto que as lembranças são chatas, a inspiração é uma companheira que só me faz querer sentar-me à rede e exercitar o silêncio vazio, a paciência parece uma conhecida de infância (e já passei desta há décadas!), com a qual não guardo mais qualquer relação de intimidade. Colocar as coisas em palavras, nesses dias, é o último recurso.
Li, outro dia, das várias páginas rasgadas por um autor na tentativa de escrever a primeira frase de sua história. Tem que haver a chama divina que traz à terra o sopro ou fagulha lingüística manifesta em sopa de letrinhas num papel.
Em uns dias, as letras aparecem como flashes ou imagens que não param de existir. Em outros, a câmara só tira fotos queimadas, desfocadas e ocas. E hoje é um dia que segue a segunda sugestão. É, também, um último recurso.
Como já perdi o sorriso e o prazer, vale qualquer rabisco que faça o tempo passar. Passatempo, sim! Mas, não lhe parece que o passatempo vivido nos tempos de criança soava mais leve e contente?
Antes de me justificar, rascunhei uma primeira frase:
“Quem imaginaria que a espera pelo próximo trem...”
E travei!
Vi a cena de uma jovem mulher parada numa estação à espera do trem de volta para o lar. Eu sabia como era o lugar. Poderia descrever, inclusive, o que se passava dentro da jovem de vinte e cinco anos que eu vi. Senti sua respiração, tinha certeza do que seu olhar triste queria que eu pusesse no papel, vivi com ela a mesma batida de coração. Ouvi o que sua alma queria me dizer. Porém, hoje é um daqueles dias em que me sinto incompetente. Apaguei a frase, e entreguei essa alma nas mãos de Deus. Minto! Virei as costas e fui embora, bem assim! Sobrou-me a culpa. Sorte ter como álibi o sentimento ruim que me justifica qualquer fracasso no dia de hoje.
Engraçado! Veja só como são as coisas!
Ontem rimos de um jovem que se aproximou dizendo:
- Se eu tirar um sorriso de vocês, ganho um trocado, moço?
- Sim, vamos lá! – e não tinha como ser diferente a resposta ao garoto com tintas no rosto.
Não sei a razão, mas minha intenção era simplesmente ficar sério todo o tempo, a fim de saber quantas coisas o tal menino sabia fazer. Deixei que esgotasse todas as tentativas.Umas sem grande graça, verdade. Outras engraçadíssimas! Permaneci sério. Foram contados três minutos e ele abaixou a cabeça e substituiu o sorriso inicial, em função da chance dada, pelo ar sério:
- É, moço! Desculpe-me! E obrigado pela oportunidade. Tem dias que a gente sente que faz, mesmo, papel de palhaço sem que fosse essa a intenção real, né? – E sorriu, saindo.
Mas gargalhei com o comentário. Assustado, ele virou-se e esperou o desfecho de minha reação inesperada.
- Tome aqui, rapaz! Você é muito bom no que faz! Deveria pensar em levar a sério sua arte. Todos os dias você está aqui?
- Sim! – sorridente e com ar de orgulho.
Despedimo-nos dele, felizes, e fomos.
Hoje, enquanto voltava pra casa, resolvi parar no mesmo lugar onde encontrei aquele jovem de ontem. E não havia criança alguma com rosto pintado. Mas tinha, sim, um moleque sentado no meio-fio, hoje sem máscaras e sem fazer qualquer questão de arrancar sorriso de ninguém. Aproximei-me, sentei-me e perguntei:
- Olá! Está de folga? Não tira sorrisos dos outros, hoje?
- Hoje não faço as pessoas rirem, nem pinto meu rosto. Mas, sabe, moço... tem dias que a gente sente que faz papel de palhaço sem que fosse essa a intenção real, né?
Fiquei em silêncio por uns instantes.
- Mas você não gosta, então, do que faz?
- Gosto, sim! É que hoje eu só queria descansar um pouco. Meus amigos pegaram meu dinheiro de ontem e sumiram. Acabaram me fazendo de bobo. Tô triste!
Conversei mais alguns minutos com o Zezinho e vim embora. Prometi voltar pra rever o novo amigo mais vezes.
O dia passou e creio que estou como o Zezinho. A grande diferença é que ele sabia o motivo do seu desconforto. E os meus são tantos, que nem sei qual deles usei como pretexto. Como pode? Os nomes que se dão às coisas são os mesmo. Tristeza, guardadas suas diferenças ortográficas e fonéticas características de cada idioma, tem o mesmo significado em todo canto; alegria é alegria em todo lugar; medo idem... Como pode a mesma coisa ser vista de jeito tão peculiar, no entanto? Como pode ser tão subjetiva a experiência de cada uma? E, logo, pode se desfazer!
Veja, foram-se minutos que preenchem quase uma hora de meu tempo, já! Parece que está funcionando. Só não consegui, ainda, uma idéia para escrever.
Há uma hora eu conversava com um grande amigo ao telefone. Certa vez ele me disse que o grande segredo da vida era abrir a geladeira, pegar aquela cerveja gelada e curtir os momentos antes da grande confusão. Lembrei-me da conversa àquela época:
- Mas, Zé, ela descobriu tudo e você nessa calma?
- Rapaz, só amanhã que vou saber do desfecho. Nem sei o que ela pensa disso. Vou me estressar pra quê?
- Ta certo! Até lá, a cerveja!
- Mas é óbvio! Uma loira de cada vez!
Sabe de uma coisa... Talvez, esteja certo.
Amanhã verei Zezinho. Temos muito que aprender. É estranho como em todo tempo é preciso fazer com que as coisas sejam vividas. Se não é pela inquietude que uma angustia gera, é pelo excesso de inatividade que esta mesma se manifesta e dá voz. O grande perigo é se perder nisso e a desorientação ecoa em tudo.
Quando me omiti há alguns minutos, a alma daquela jovem queria me dizer o seguinte:
“Quem imaginaria que a espera pelo próximo trem seria o início de uma viagem fascinante! Tal fascínio não me cegou os medos nem evitou as quedas que eu previa levar. Trouxe, daquela estação, todos eles comigo. Eram meus! Só não previa que, na bagagem, eu acrescentasse asas que me fariam conhecer jardins tão vistosos em minha volta ao lar”.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Versos da pouca prática

Do espaço vazio
à cabeça cheia
de idéias soltas,
o silêncio dói...

Mas, só quando não há
a voz irritante
de um anjo vadio
perturbando meus sonhos de herói.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Um Dia a Casa Cai

Dona Manda é a candura em pessoa. Nunca vi!
Seu único defeito, opinião unânime entre nós, foi parido por ela.
Coitada dela! Mãe nenhuma merece.
Foi hoje que vi Dona Manda perder a compostura.
Veio o peste...
... Bateu no vizinho, tacou pedra no Zezinho, quebrou vidro, xingou cinco e correu.
Ao que ouço, bem baixinho:
- Filho de uma mãe que não sou eu!

quarta-feira, 14 de março de 2007

Uma Data Especial

Um dia, Deus acordou e fez o mundo. Foram seis dias de trabalho. No sétimo, descansou.
Lá pelo oitavo dia, assim que levantou-se, subiu aos céus e pôs-se a observar Sua obra lá de cima, contemplando a arte feita com perfeição. Tinha um vulcão. Notou que acertou em fazer a montanha e seu pico coberto de neve, afinal, se há fogo, há de se ter algo que o controle. Água gelada Lhe pareceu uma ótima idéia!
Reparou o espaço enorme onde só existe o vento que transparece o céu azul e as nuvens que brincam de fazer formas. Daí, soltou um outro sorriso pela brilhante idéia de enfeitar esse espaço com pássaros, dos mais coloridos aos que bailam sozinhos ou em companhia.
Lá embaixo, não tinha como não sentir orgulho do verde das árvores com o amarelo da terra e o azul do mar em contraste ímpar. Tratou, também, de não deixar, aqui na terra, qualquer pessoa com dom artístico que superasse a combinação dessas cores, feita por Ele.
Lá na grama vinha uma formiguinha, programada para cortar folhas e viver embaixo da terra; programada pra fazer sua casa, pois haveria dias em que proteger-se era essencial; programada para viver, e desafios são feitos de propósito para se ter uma razão nas coisas. Assim fez com tudo que é vivo. E sorriu, outra vez!
Pai Nosso!; Mãe Natureza! Sol do dia: luz; luar da noite: luz; estrela-do-mar: água; estrela no céu: infinito.
Viu lá, escondidinha atrás da sombra de uma pedra, uma mulher. Ali por perto, exposto ao sol, um homem. Tocou os dois, um de cada vez, não por não conseguir tocar os dois ao mesmo tempo, mas só para poder contemplar melhor Sua criação. Em um, deixou o experimento de um choro triste; no outro, a vivência de lágrimas sorridentes. Em ambos, alguma espécie de contemplação do que se fazia evidente em seus corações naquele instante exato, mas infinito em sua força. Aí estava a Vida!
Foi aí que Ele parou de sorrir. Franziu a testa e divagou em seus pensamentos. O mundo parou naquela hora precisa. Fez-se silêncio e vazio. Foi, então, que Ele retomou a onividência e proclamou o amor como o único sentimento eterno e mais nobre, bem como o perdão seu aliado oposto e antídoto, destituindo o ódio de seu posto tão ostentado por alguns que ainda não O conheciam. E sorriu como nunca antes feito! Depois de um tempo que Ele induziu alguém aqui entre nós a dizer que "os opostos se atraem".
Tudo isso em um dia. Um dia especial! Um dia eterno!
Mostrou-se, então, e, mais uma vez sorrindo resplandecente de amor, desejou a uma vida muito especial, feita por Ele:
- Feliz dia novo!

sábado, 24 de fevereiro de 2007

A Feira

No mercado municipal tem tenda; tem barraca. Lá tem fruta: goiaba, banana às pencas, é o que mais tem. Tem, também, colesterol pra todo gosto: pastel, pamonha, tudo frito. Tem pizza de tarde, de noite, todo dia; frango assado, palmito, farofada e tempero pra qualquer festa. Vendem-se doces e salgados de muitos tipos e lugares. E o mais importante: a gente que os use.
Tem velho, homem, mulher, gago, baixo, gordo, forte e desdentado que finge um sorriso bonito. Tudo falso!
Mas há outros mal-vestidos ou bem arrumados que chegam pra alimentar quem se gosta, presentear quem se quer, pois lá tem brinquedo, além de comida. É bem verdade que muitos deles não duram nada, são quase de mentira. Tem mentira no mercado. Não sobra, mas também não falta!
Lá se vê gente que grita, gente que ouve, que murmura, fala grosso e pechincha. Gente que vai e volta e passa oito vezes pelo mesmo lugar. Acho intrigante, mas tem gente que vive na feira, literalmente. E gosta! Também, quem entra, nunca sai de mão vazia; sempre ganha algo em troca. Vira tudo uma salada só! É mistura de todo canto. Tem daqui, dali, do interior, exterior, da fábrica, da serra, da água doce, da terra, do mar, que voa...
Tem até um mendigo que quando vi sentado na porta de entrada da feira pelo sétimo dia consecutivo, perguntei:
- Por que não entra nunca à feira?
- É que quem tudo vê, nada tem.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Extra! Extra!

Num jornalzinho:

[Na cidade de Finaqui, um fato inusitado chamou a atenção de moradores e autoridades. Alunos de uma escola da rede pública dissertaram sobre o tema “Violência”, durante a primeira semana de aula.
Tamanho foi o susto do professor ao se deparar com duas redações que o deixaram em uma situação embaraçosa.
O primeiro aluno (J.S.P.) escreveu o seguinte:
“A violência é um mal real em nossa sociedade. Deve-se fazer de tudo para tentar erradicá-la do nosso meio, pois, benefícios ela não traz algum... Durante as férias, minha família sofreu um forte golpe por conta dessa onda de maus-tratos evidentes em nossa cidade... E, então, meu tio estava voltando para casa em seu carro novo que, com tanto sacrifício, conseguiu comprá-lo quando, de repente, foi abordado por três sujeitos encapuzados que o forçaram a sair do carro e a entrar no porta-malas... e após quase três horas desaparecido, sem dar qualquer sinal de vida à sua família, ligaram do hospital pedindo que fossem até lá para preencherem os formulários de internação... e somente após dois dias meu tio pode voltar à sua vida normal... espera-se o dia em que as autoridades sintam-se na pele daqueles que sofrem com o problema da violência e ajam de forma exemplar com os infratores... em nome do bem-estar social.”
Em sua redação, o outro aluno (J.S.F.) expôs suas idéias da seguinte forma:
“Não há dúvidas de que a violência retrata bem o que seja nossa sociedade nos dias de hoje: um sistema falido e carente de justiça... a desigualdade social é o principal causador dessa desordem vivenciada... em nosso dia-a-dia... A classe pobre é sempre desfavorecida e discriminada. Há algumas semanas, três amigos meus foram acusados de terem roubado um carro quando, na verdade, não foram eles que roubaram... foram presos e lá estão até hoje... muito se vê, nos bairros pobres, crianças crescerem e acabarem por incorporar o “ilegal” como parte de sua vida, uma vez que é assim que sempre o verão, enquanto um membro da classe baixa... e clama-se, sim, por justiça em nossa sociedade... e é também necessário que os nossos comandantes usem do bom-senso para lidar com essas questões, sem tratar a classe baixa com indiferença e violência... eles devem tentar trazer a paz à nossa sociedade, mas com a seguinte pergunta sempre em mente: E se fosse meu filho o infrator, como eu o trataria?”
Ao ser questionado por nossa equipe de reportagem como foi resolvido o impasse, Ferdinando Donnateli Praxedes (o professor) foi categórico: “Cabe a mim fazer com que eles saiam da escola sabendo escrever um bom português”, arremata.]

Fiquei curioso e deveras indignado por não terem insistido em saber a nota dos dois alunos. “Êta, equipe de reportagem incompetente! Jornalistas assim é o que não faltam”. Mudei de página e fui saber das novas contratações do meu time.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Singular

A mãe chamou o filho que chegou do primeiro dia de aula e foi direto para o campinho jogar futebol com os amigos:
- Vem almoçar, menino!
- To indo, mãe! – e entrou.
Sabedor das coisas e bom aluno, foi logo dizendo:
- Mãe, hoje a professora de português me fez elogios na sala de aula. Disse que, mesmo depois das férias, eu continuava sabendo a matéria do ano passado.
- Hum! E qual era o assunto, meu filho?
- Plural.
- É aquelas coisas que a gente usa pra dizer quando tem mais de um, né?
- É, mãe! Bem essas, mesmo. – olhando de rabo de olho e sério.
- Tem que aprender direito pra não ter problema com trabalho quando crescer. A maioria das pessoas falam errado. Seu pai sempre disse isso.

- Hum!...
- Mas todo mundo tem seu jeito particular. Eu, mesma, não gosto de quem me corrige a fala. Não concordo com essas coisa! Vou pegar os prato pra gente comer.
O menino manteve a quietude, por respeito à mãe, e não a corrigiu. Mas, sussurrou baixinho, enquanto sua mãe pegava os pratos na cozinha:
“Essa minha mãe discorda em tudo... e tem um jeito tão singular de usar o plural!”